Migraines

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Mensagem por Aidan Sheppard em Qua Out 31, 2012 10:17 pm

Status: RP Fechada
Data: 08 de Setembro, às 13h30min.
Local: Biblioteca
Participantes: Aidan Sheppard, Gerry Vakarian.

.20

Conhecia aquela sensação desde que se entendia por gente, e ela era tão frequente que não era como se pudesse se esquecer. Não, não era - era escuro e rastejava debaixo de sua pele, tingia mãos e pés de frio, tingia a nuca e a fronte de algo quente e quase febril e se embolava em seu estômago, quente-frio, pegajoso e crescente, escalando para sua garganta e se aninhando também em sua nuca.

Quando tentou se levantar da cama, sentiu a visão turva e uma chuva de pontos brancos dançando na semiescuridão do dormitório, a lancetada no fundo de seu olho que se interligava à náusea em seu estômago pelo nó na nuca. Sentia que ia morrer, mas sabia que era apenas outra crise de enxaqueca subindo pelas suas vértebras.

E conforme Aidan Sheppard iniciou seu dia, procurando o escuro e saltando o café da manhã, os barulhos da chuva só ajudavam a crescente sensação de mal estar a atingir patamares e espiralar além do seu controle. Vertigem pura quando tentou enxergar no claro, quando passou por vozes estridentes e contentes daqueles que iam para Hogsmead (era dia de visitação? Não sabia.). E conforme ele se arrastava pelos nichos mais escuros do castelo, evitando contato com pessoas vivas, as horas se arrastavam intermináveis, também percebeu que o bolo em seu estômago não estaria disposto a permitir que almoçasse e, deixando para lá qualquer tentativa de colocar algo para dentro que depois apenas fosse sair junto com uma poça de bílis. Não, já conhecia essa rotina o suficiente para saber melhor do que isso.

Também achou que era melhor não perambular nas masmorras, previa que ia ser o dia inteiro cheio de colegas falantes, animados com a primeira visita ao vilarejo, e ele teria que sorrir e fingir que estava interessado e, nesse momento, tudo o que queria era sumir em uma bola e fingir que não existia. Não, o Salão Comunal não era bom, mas a crescente chuva e o fato de que sabia que sequer os corvinais podiam estar entocados dentro da biblioteca num dia daqueles, fez com que entrasse devagar pelas grandes portas de madeira, procurando um lugar escuro junto às últimas mesas.

- Urgh... - foi o único murmúrio que escapou de sua boca, até mesmo o som da própria voz parecia ofensivo demais enquanto ele se encostava contra a parede e um armário abarrotado de livros, sentar também não era algo que seu estômago fosse aguentar.

Só desejou ficar quieto, escondido naquele canto sem ser percebido porque, realmente, não pretendia acabar com o dia de ninguém. Tinha certeza que Sanjaya estava levando agarota Burton para passear em Hogsmead, era o que ele faria no lugar dele. E também calculava que, por mais esquisita que fosse a relação entre Gerry e a Cousland e o problema que eles tinham com comida, devia estar se desenrolando algo similar. Sentiu o estômago protestar de novo, apertou as mãos contra as têmporas e só respirou, só conseguiu respirar. Se não fosse a Cousland, devia estar com o Alleborn e não, Aidan realmente não queria interromper o tempo de qualidade que o outro tinha com seus amigos, não porque estava prestes a ter a cabeça explodida ou vomitar por cima de preciosos e inestimáveis livros antigos, era algo que ele estava acostumado mesmo.

Aquela chuva, pelo jeito, ia durar uns três dias e só então iria levar embora sua enxaqueca.

Resumo:
Sick Aidan is sick XDDD

Enfim, acordando com uma característica enxaqueca, Aidan pula todas as refeições e o único lugar escuro e quieto que encontra para se esconder é em umc anto da biblioteca.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Qui Nov 01, 2012 12:38 am

.13


Não era preciso ser um prodígio das artes divinatórias ou sequer uma promessa de investigador de sucesso para perceber que havia qualquer coisa muito errada naquele domingo.

Começara no café da manhã sem interrupções ou invasões à mesa da Grifinória – ou ao menos as invasões com as quais já estava acostumado, o que definitivamente não era o caso com Burton, que ao longo da primeira semana de aulas aparecera mais de uma vez para passar ao menos uma parte do tempo da refeição com o namorado. Ainda era meio constrangedor ter as doses de glicose do desjejum elevadas daquele jeito pelo casal, mas ao menos Gerry ainda podia contar com Cousland e Loewy para ocupar sua atenção.

O que não fazia sentido era Sheppard não ter aparecido até aquela hora. Domingo, afinal, costumava ser o dia em que Gerry, livre do compromisso com a grade de horários, aproveitava o café da manhã até o fim. E se ele havia chegado ao ponto de cutucar sem vontade a enésima panqueca, sem que o canadense desse um sinal de vida sequer, algo devia estar fora de lugar.

Tentou, sem muito sucesso a princípio, descobrir o que é que estava acontecendo. Uma semana com o distintivo de monitor no peito e sua obsessão por manter as coisas em ordem foram suficientes para garantir que pelo menos metade dos calouros desinformados da Grifinória o elegessem como ponto de referência quanto às (poucas) regras que não pretendiam quebrar. Hogsmead, pelo visto, era uma delas, o que não era de se estranhar; pouca gente presa em um colégio interno está disposta a colocar em risco a chance de liberdade que consegue, especialmente entre os novatos que começavam agora a fazer suas visitas. Assim, entre uma informação e outra, acabou circulando muito menos do que esperava – e definitivamente menos que o bastante para descobrir onde Aidan se encontrava. Ao menos tinha uma lista de lugares onde ele não estava, e ela já incluía a Lufa-Lufa (cortesia de Weismann), a sala de Estudo dos Trouxas, e a cozinha. Isso sem contar toda e qualquer área externa, porque não era como se o lufano fosse ficar tomando chuva e passando frio de graça.

Quando ele não apareceu nem mesmo para almoçar, hipóteses um pouco mais extremas começaram a se insinuar pela mente de Gerry, como sequestro por neo-comensais (se é que o termo existia), abdução por centauros e crise de síndrome do pânico na torre de Astronomia. Todas obviamente estúpidas e muito menos prováveis que os locais que ele pretendia verificar assim que acabasse de comer, é claro. Ainda assim, o mero espaço para especulação o irritava; significava que podia realmente existir algo de errado acontecendo, sem que ele soubesse. Fora de seu alcance para tomar alguma atitude.

Resolvido o segundo prato de comida, catou um pote com um pouco de pudim e foi-se pelos corredores, devorando o doce ainda em sua busca. Aproveitara a refeição também para avisar a Gupta que talvez não fosse a Hogsmead, tinha que descobrir por onde Shepard andava primeiro. Caso o encontrasse e estivesse tudo bem, os dois se juntariam ao grupo no vilarejo; do contrário, deixou com o amigo indiano uma pequena lista de compras e algum dinheiro, um pouco a mais do que julgava necessário, por segurança.

Pelo menos a busca da tarde deu resultado muito mais depressa. Depois de revisitar a sala de Estudo dos Trouxas só por garantia (sabia bem como Shepard podia ficar um dia inteiro com a cara enfiada naqueles tais jogos de computador e qualquer coisa sobre efeito-de-massa), decidiu tentar a biblioteca. Naquele tempo chuvoso, uma leitura podia mesmo cair bem. Ao entrar, cumprimentou Norris (mais fácil assim) com um breve menear de cabeça, respeitando não só o silêncio exigido pelo ambiente, mas também o seu direito de ficar calado quando qualquer palavra pode ser usada contra você – e parecia realmente impossível escolher a palavra certa quando quem estava em questão era a curiosa figura que tomava conta dos livros de Hogwarts. Foi passando por entre estantes repletas de volumes e corredores mais vazios que o habitual, até que acabou encontrando o que procurava lá ao fundo, a cabeça baixa e o corpo quase escorregando contra a parede.

Enxaqueca, lógico. Uma das companhias mais antigas do canadense.

Gerry só estalou a língua diante da cena, aproximando-se em silêncio. Convivia com Aidan havia tempo mais que suficiente para ter uma dimensão do que ele passava naquelas crises. O tempo, contudo, não servira para colocar um mínimo de juízo na cabeça daquele infeliz, que devia procurar ajuda numa hora dessas.

– Ei. – Chamou em um sopro de voz, meio curvado, olhos estreitos enquanto tentava estudar a expressão sofrida do outro – que, vale dizer, estava sofrendo porque queria. Por que diabos ele insistia em remoer a dor ao invés de procurar a enfermaria, Gerry não tinha ideia. Mas por mais que quisesse, aquela não era hora para passar um sermão no amigo, então o holandês simplesmente se esforçou para engolir a bronca e dobrar a língua antes de falar, medindo as palavras como não costumava fazer.– Cabeça, né? Eu sei. – Um suspiro insatisfeito lhe escapou. – Pedi pro Gupta trazer uns doces de Hogsmead. Mas era bom eu te levar pra enfermaria.

Resumo:
Com o desaparecimento de Aidan em pleno domingo de visita a Hogsmead, Gerry abre mão do passeio para tentar localizar o amigo. Ao encontrá-lo em uma de suas crises de enxaqueca, tenta convencê-lo a ir para a enfermaria.

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Qui Nov 01, 2012 10:51 am

.21

Com as mãos pressionando as têmporas, Aidan quase não podia ouvir o mundo além do seu próprio fluxo sanguíneo. Não ouviu, portanto, os passos do seu amigo, concentrado que estava em só ouvir o silêncio e bloquear todo o resto ao seu redor. Mas ergueu os olhos, escuros e rasos, quando a voz dele no que quase podia ser uma bronca se não soasse preocupada demais e da mesma forma que uma criança que aguenta tudo sem sequer demonstrar um mínimo de afetação até sua mãe dizer que tudo vai ficar bem e o pirralho cair em choro, sentiu que podia finalmente desabar porque não, não estava bem.

Em algum outro momento, teria analisado o que Gerry disse, enunciado todos os pontos do porque não confiava na “medicina “ bruxa, que seu próprio médico no Canadá (com um diploma universitário e anos de experiência e capacitação) tinha dito que tomar remédio demais não adiantava de nada e só acabaria com seus rins, podia dizer que medibruxos não entendiam a enxaqueca tanto quanto os outros médicos e por isso o tratamento paliativo conseguia valer menos que o trouxa, mas sentiu a voz travar no fundo da sua garganta, fechando com ela o bolo em seu estômago.

Mas caiu para frente, a testa quente que era um indicativo do seu problema encontrando a curva do ombro de Gerry e olho fechados. Soltou um suspiro que parecia ter levado sua alma e Gerry estava sempre gelado, a pele sempre tão fria como se o calor passasse despercebido por ele, o que era um alento para a temperatura desregulada de Aidan. Acabou com um nariz meio enterrado em um ombro, só respirando.

Aquela criança, quando recebia atenção e preocupação e se desmontava.

Familiar, já fazia anos que Gerry era uma figura escrita em letras garrafais como PORTO SEGURO em seu cérebro, e ele sabia que podia desabar e parecer fraco porque o holandês iria entender. O próprio canadense achava que tinha algo errado, provavelmente não era só enxaqueca e estava delirando de febre porque tinha certeza de que Vakarian e Cousland e/ou Alleborn junto com Gupta e Burton e o resto de Hogwarts estavam pulando poças d’água e tomando cerveja amanteigada, ele não devia estar na biblioteca escura onde só havia um lufano doente e uma/um bibliotecária/o (não, depois de anos ele ainda não sabia definir o que Sage era, achava que já nem tinha mais importância de todo jeito) com o barulho constante da chuva. Mas não ia reclamar com seu delírio.

- Desculpa… – foi tudo o que conseguiu murmurar, rosto escondido pelo cabelo, testa e nariz enterrados entre pescoço e ombro, olhos fechados. Não sabia exatamente pelo que se desculpava, só que Gerry iria entender.

Resumo:
Assim que o amigo chega e fala com ele, a estoicidade de Sheppard se desmonta.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Qui Nov 01, 2012 9:51 pm

.14


Quando se assume desde criança, com a maior seriedade do mundo, a meta de ser auror, é de se esperar que o indivíduo não seja dado a criar problema. Ainda que tivesse nascido em uma família com renome e recursos que, apesar de não exatamente ostensivos, eram suficientes para formar um moleque mimado, Gerry passava longe de ter qualquer tipo de frescura: comia o que lhe fosse servido, dormia no chão sem reclamar, se fosse necessário, e acreditava ser capaz de lidar com quaisquer privações que lhe viessem pela frente. Por isso mesmo, se permitia algumas reservas – em geral, ligadas a falta de ordem e, talvez ainda acima disso, contato físico. Não, ele não gostava de pessoas invadindo sua bolha, a segurança de seu espaço pessoal; evitava abraços, tapinhas nas costas, beijos de tias e gestos semelhantes.

Claro, nada disso adiantava com Sheppard e, por mais teimoso que o holandês fosse, já tinha desistido de reclamar após cinco anos inteiros convivendo com o lufano e sua insistência em comprovar que dois corpos podiam sim ocupar o mesmo espaço. Bem ou mal, conseguira até se acostumar com os abraços em King’s Cross (ou de aniversário, ou qualquer outra ocasião que o canadense julgasse propícia), as cotoveladas (ele mesmo havia aprendido a se divertir acertando costelas alheias) e os bancos acabando mais apertados do que deveriam ser.

Mas tudo era bem diferente de um Aidan quase desmaiando (ou vomitando, ou ambos) em cima dele, rosto enterrado em seu ombro, mais gemendo e grunhindo que falando. Gerry supôs que o pedido de desculpas era meio pelo estado deplorável em que se encontrava, meio por não conseguir se sustentar muito bem; ainda assim, não tinha certeza absoluta. O que lhe restou foi balbuciar um “nah, tudo bem” vago, esfregando de leve o braço do outro, como se isso pudesse trazer algum conforto – ao menos para o canadense, porque ele mesmo se sentia cada vez mais desconfortável.

Respirou fundo e quase se arrependeu em seguida, considerando que o movimento brusco de seus ombros poderia ter piorado o mal-estar do amigo. Mas precisava daquilo para colocar as ideias em ordem e se lembrar do passo-a-passo quase mecânico que aprendera ao longo dos anos. Por mais que fossem praticamente da mesma idade, o lufano continuava sendo uma espécie de irmão mais novo (ou coisa do gênero) para aquele grifinório filho único; se Aidan estava naquela situação, pro diabo com desconforto ou o que fosse, Gerry tinha a obrigação de estar ali por ele. Assim, ignorando as reservas que tinha, primeiro apertou uma das mãos do outro (gelada, como era de se esperar) e depois ergueu um pouco o rosto dele, conferindo a temperatura da testa (quente, também como previsto). Aproveitou também para colocar um pouco mais de espaço entre os dois, segurando o canadense pelos ombros, forçando o próprio rosto no campo de visão dele.

– Ei, Sheppard. Tá ruim aí, né? Eu sei. – Soltou o ar pelo nariz em um esboço de riso, a boca torcida de lado. – Você consegue sentar um pouco? Tsc, claro que consegue. Anda. – Ainda falando baixo, foi arrastando o outro com cuidado em direção à mesa mais próxima, puxando uma cadeira para ele. – Fica aqui só um minuto. Eu vou buscar um negócio pra você e volto correndo. Sério. É um minuto.

Antes de sair, contudo, tirou o próprio casaco e o passou em volta dos ombros do amigo; melhor se tivesse um cobertor – na verdade, melhor se Sheppard não fosse um cabeça-dura e aceitasse ir para a enfermaria, sossegando o facho em um leito –, mas teria de servir. E então se afastou sem olhar para trás, porque sabia bem que o canadense estaria olhando para ele com aquela cara de cachorro abandonado, fazendo com que Gerry se sentisse estupidamente culpado enquanto se esforçava para ajudar. Malditos fossem todos os lufanos e seus poderes sobrenaturais de chantagem emocional.

(Infelizmente os poderes não dependiam de contato visual. Não considerando que, por cada segundo que passou fora da biblioteca, o holandês se sentiu como se fosse o novo Lorde das Trevas, brincando de levitar criancinhas na beira de um abismo.)

No fim das contas, foi até bom ter deixado o casaco com Aidan: fora o curto trecho sob as vistas de Norris, Gerry fez correndo todo o trajeto da biblioteca até o banheiro mais próximo, e então de volta. Chegou de volta à mesa com o rosto um tanto afogueado e a respiração acelerada, mas trazia consigo uma toalha de mão molhada – o que não foi o bastante para impedir o canadense de encará-lo com um imenso POR QUE VOCÊ ME ABANDONOU? queimando em seus olhos escuros. Malditos fossem todos eles.

– Falei que voltava rápido, não falei? Pois é. – Foi puxando outra cadeira para perto da ocupada pelo lufano, sentando-se junto ao amigo. Estendeu então a toalha, já dobrada ao meio. – Aqui, ó. Pra sua testa. Consegue ficar com a cabeça só um pouco virada pra trás, pra não cair? Era melhor se você fosse pra enfermaria e deitasse um pou— tá, esquece, não tá mais aqui quem falou. – Revirou os olhos, erguendo as mãos em rendição. Em seguida, as estendeu em direção à cabeça de Aidan, meio sem jeito, primeiro mal tocando e só depois tomando coragem de fazer alguma pressão nas têmporas. – É isso mesmo, né? Me avisa se eu fizer algo errado.

O desconforto só piorava, enrodilhando-se no fundo do seu estômago e dando um nó na garganta, fazendo com que ele se ajeitasse mais de uma vez na cadeira, incomodado. Mas não tinha sangue frio suficiente para assistir um amigo sofrer e ficar inerte – ou pior, trair a confiança de um lufano, arrastá-lo para a enfermaria e ser condenado às consequências da mágoa eterna. Melhor colaborar.

Resumo:
Já que Sheppard se recusa a ir à enfermaria, Gerry acaba decidindo dar uma de enfermeiro por conta própria, aproveitando o que já aprendeu sobre enxaqueca ao longo de tantos anos de convívio com o outro.

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Sab Nov 03, 2012 2:04 am

.22

O suspiro, que tinha muito de alívio e um pouco de preocupação, foi o único som que o lufano emitiu quando viu que não, Vakarian não o tinha largado pra vomitar sozinho sobre a boa madeira da mesa da biblioteca e enfrentar a fúria de Norris (ele tinha uma série de piadas sobre isso, mas não era exatamente o momento para nenhuma delas). Chegou a discutir consigo mesmo a respeito da idiotice de imaginar que Gerry fosse capaz de só deixar ele ali, depois de encontrá-lo, e partir pisando em tijolos dourados para Hogsmead ou qualquer outro lugar que fosse. Era asneira pura, ridículo demais conceber algo assim sobre Gerry Vakarian, que ajudaria até Lorde Voldemort e seus comparsas se sentisse que eles, de alguma forma, foram injustiçados e tinham se reformado. Seu amigo era assim - e era por isso, Aidan tinha certeza, que tinha caído nas garras da Cousland, tragédia demais reunida em uma menina só, impossível demais deixar para trás.

Mas ao menos tinha voltado e colocado uma toalha molhada e gelada em sua testa que arrancou outro suspiro lá do fundo. Era bom, um choque térmico com a pele quente e o casaco enorme em seus ombros, mas fazia com que se desmanchasse mais um pouco na cadeira e se sentisse melhor.

Talvez devesse realmente ter ido para a enfermaria, ter se fechado em um leito com todas as cortinas baixadas e implorado por algo que o fizesse dormir por uns três dias. Era certamente a coisa sensata a se fazer, melhor do que vomitar por cima de livros centenários mas, assim como a ânsia de vômito parecia regredir e amolecer sob tanto cuidado e preocupação vindo da sua direita, ele também sabia que alguma parte sua tinha esperado que fosse assim e tomado por garantido a ajuda do outro.

Ainda mais depois de ter lido aquilo não uma mas três vezes e alguns pontos terem se tornado menos escuros e-

E nada. Duas mãos, dedos compridos e gelados, leves a princípio, meio incertos, mas que depois pressionavam suas têmporas e ele nem precisou abrir os olhos para saber o que estava acontecendo. Alívio, alívio puro, passando pelas pontas dos dedos do outro como uma corrente magnética e indo para o fundo do seu olho e sua cabeça.

É isso mesmo, né? Me avisa se eu fizer algo errado.

- É. - foi mais um gemido do que uma palavra, algo que escapou sem intenção mas que ele não se importou, se desmanchando na cadeira e, instintivamente, buscando se aproximar - É assim... e isso é bom. - a última palavra foi mais um chiado, os braços que antes estavam cruzados sobre o estômago como se pudessem impedir a náusea finalmente relaxando e caindo ao redor do corpo, desmontados e pesados.

Não era como se metade do mal estar tivesse passado ou como se a vontade de apagar por pelo menos três dias não estivessem bem ali, à esquina, mas as coisas pareciam mais fáceis de se suportar quando Gerry estava por perto. Tinha sido o mesmo naquelas primeiras férias, tinha pensando que ia voltar para casa onde ele e a mãe ficariam todo o tempo cheio de reminiscências do Comandante Sheppard, pesados demais, mas então o moleque Vakarian tinha ido passar as férias lá e embora o fantasma do Comandante ainda pesasse sobre os ombros deles, tinha sido mais fácil respirar. Nem precisavam de muitas palavras, não precisava de nada, só de ficar em silêncio daquele jeito.

Acabou recostando a cabeça para um ombro, era baixo o suficiente para sequer precisar se inclinar muito, e se sentia confortável daquele jeito, como se precisasse apenas ficar mais um pouco e tudo fosse girar para trás e voltar ao normal. Familiar demais, sempre sabia que podia contar com o ombro do grifinório se precisasse de um. Até porque não era a primeira vez ou mesmo a décima e não seria a última em que fosse se esconder em um canto, meio morto pela enxaqueca, até ser encontrado por Gerry, era quase um padrão e talvez fosse por isso, não sabia dizer, que nunca pensava realmente em ir à enfermaria e dormir.

Mas, então, ele se lembrou e seus olhos se abriram de súbito conforme a frase se formava em sua memória do mesmo jeito como a tinha lido em papel:


Don't you think is kinda late to this after dating each other for a long time?

E finalmente não havia apenas choque e assombro e confusão no que tinha lido, aquela bendita/maldita coisa que a ruivinha Pointer havia entregado e que ele quase tinha certeza que era a causa-mor de sua enxaqueca, agora havia um súbito sinal de compreensão.

Não se moveu, mas virou olhos castanhos enormes para o rosto ao seu lado enquanto aquela coisa em seu estômago que antes só ameaçava derrubar sobre os próprios pés se transformava em algo diferente.

Spoiler:
Ainda se sente melhor com a ajuda do amigo - pra depois quase se sentir pior com outras coisas.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Sab Nov 03, 2012 9:06 pm

.15


Tudo bem. Mesmo com toda a sua disposição para ajudar, o empenho em nunca deixar alguém na mão, muito menos um amigo, Gerry tinha de dar o braço a torcer: aquela situação – Sheppard de olhos fechados, afundado na cadeira, vez ou outra soltando um suspiro ou uma ou outra palavra meio gemida – era um tanto constrangedora, especialmente levando-se em conta a quantidade de mentes maldosas povoando Hogwarts. Ao menos o fato de que boa parte das tais mentes maldosas já tinha sumido rumo a Hogsmead amenizava um pouco o problema. Por outro lado, o fato de que até ele já estava começando a maldar aquilo tudo não ajudava em nada.

Desconfortável. Absolutamente desconfortável.

Ainda assim, considerando que o lufano tinha recobrado um pouco da cor e não parecia mais prestes a vomitar, Gerry respirou fundo, engoliu em seco e manteve-se empenhado em continuar com o socorro a que tinha se prestado, sem pensar muito a respeito. Sem pensar nada a respeito, aliás. Se pensasse em alguma coisa, seria em comparar a ocasião a eventualidades como ter que amputar a perna de um amigo no campo de combate. Certamente isso seria algo de dar um nó na garganta, também. Com isso em mente – perna amputada, perna amputada, perna amputada –, ajeitou-se de novo na cadeira, afastando um pouco o corpo, enquanto mantinha os braços mais esticados.

O que não adiantou de coisa alguma, porque Sheppard fez o favor de se inclinar e recostar meio de lado em seu ombro, a toalha úmida empapando a camisa e gelando a pele por baixo. Isolado na biblioteca com a princesinha canadense, que no exato momento estava enrolada em seu casaco, gemendo e suspirando graças ao que quer que ele estivesse fazendo com as mãos, o nariz enterrado em seu pescoço. Gerry conseguia pensar em uma maneira ou duas situações menos críticas para se aproveitar um sábado; ter a própria perna amputada era uma delas.

E o que ele fez? Resignou-se e, respirando fundo (aquele cheiro era do que quer fosse a coisa que Sheppard passava no cabe— merda), continuou com a massagem nas têmporas do outro, sem protesto. Apenas passou a fazê-la com os polegares, os outros dedos apoiados na cabeça do canadense, porque assim ficava mais fácil de lidar com a súbita mudança de posição.

Naquele exato momento, Gerry Vakarian convenceu-se de que merecia uma medalha, no mínimo. Era o melhor amigo de todos os tempos.

(Assim que aquilo estivesse acabado e Sheppard se sentisse melhor, porém, ele trataria de ter mais uma conversa sobre espaço pessoal com o outro. Dera liberdade demais ao longo dos anos e no que isso resultava? Qualquer coisa na qual ele definitivamente não queria pensar, e nem era bom que o fizesse.)

Mas como se para provar que toda situação ruim ainda pode piorar, o canadense se mexeu; a princípio, Gerry chegou a imaginar, com uma ponta de alívio – e outra de qualquer coisa que ele não podia reconhecer ao certo –, que fosse se ver livre do peso no ombro. Mas Tudo que Aidan fez foi se virar um pouco mais, o rosto então voltado para o do holandês, olhos imensos muito abertos e um bocado fora de foco – aliás, a cara dele era pouco mais que um borrão, de tão perto que estava.

Aquilo sim era desconfortável. Todo o resto até ali tinha sido uma piada.

O movimento que o grifinório fez com o pescoço provavelmente era inumano, ou ao menos algo que só seria de se esperar de indianos ou dançarinos de break: forçou-se a afastar o próprio rosto, enquanto sentia os próprios dedos prendendo a cabeça do lufano exatamente onde estava, talvez com um pouco mais de força do que convinha usar contra alguém que estava morrendo de enxaqueca. Desespero irracional justificava.

– Uh... Sheppard? – Chamou com o cenho franzido pelo desconforto, o constrangimento e todo o resto, rezando para que aquilo parecesse apenas preocupação impressa em sua expressão. – Tá tudo certo?

Óbvio que não. Mas não era como se ele tivesse coisa melhor a dizer.

Resumo:
Desconfortável ao extremo com a situação em que se encontra, e tentando sequer pensar a respeito, Gerry cogita amputar a própria perna e acaba sendo brutalmente interrompido por um Aidan fora de foco.

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Sab Nov 03, 2012 9:41 pm

.23

Não, não tinha nada certo e isso não envolvia sequer o aperto em sua cabeça que fez uma onda violenta de dor atravessar seu crânio. Isso não era nada perto de todas as imagens que começavam a tomar forma de verdade em sua mente. Okay, talvez ter a cabeça presa e ter que ficar olhando o outro tão de perto, mesmo sem foco, piorasse a situação, mas era o mínimo perto de um quadro muito maior. Porque, tinha certeza, Fae Pointer e seus malditos materiais de leitura eram como beacons protheans, imagens desfocadas que não fazia sentido mas ficavam lá girando em seu cérebro e preocupando e isso tornava os dedos de Gerry, nesse exato momento quase cravando dez buracos em seu crânio, o cipher, a chave para colocar toda a bagunça dos beacons em ordem.

Certo, não toda a bagunça, ainda havia muita coisa faltando ali, mas desde que não havia nenhuma asari por perto (e não, ele não pretendia ainda colocar a ruiva como a Dra. T'Soni nessa história), achava que estava se saindo muito bem para quem supostamente nunca entendia nada.

Era ridículo.

Não fechou os olhos e nem se mexeu porque, francamente, não tinha restado capacidade mental suficiente para essas ações, entre enxaqueca e descobertas históricas através de sinalizações arqueológicas, apenas ficou olhando e piscando e vez ou outra franzindo os olhos como se tentasse enxergar fora do padrão. Mas não adiantava de nada, tudo continuava ali, continuava se conectando e brilhando mais que os pontos da sua visão com dor de cabeça.

- E... só... é... - tentou balbuciar qualquer coisa, compartilhar a nova descoberta científica, tentar catalogar até que os dois achassem ridículo (só sua imaginação, Sheppard!) e rissem e as coisas voltassem ao normal e ele pudesse ficar em paz para vomitar em um tomo ou dois de História da Magia ou talvez Poções, mas não achou a voz e não achou nenhuma palavra que fizesse sentido, então só ficou a meio caminho de dizer algo, como um peixe.

Os fatos, como ele começou a percebê-los na exata ordem de aparição nos capítulos que tinha visto:

1- Sujeito A protegendo o sujeito B desde a mas tenra idade - Confere.
Não precisava nem questionar isso, mesmo quando eles ainda eram novos demais e tinham a mesma altura era isso que Gerry fazia, colocar pessoas - ele incluso - debaixo da asa e protegê-las. E como não tinha crescido muito ao longo dos anos, ainda continuava sob essa proteção como era ridiculamente fácil de perceber agora, naquela exata situação.

2- Sujeito B que, realmente, não tinha muito talento além de ser simpático, admirava de verdade o amigo A e ainda fazia questão de provir alimentação diária porque sujeito A tinha sérios problemas de duas lombrigas e um simbionte vivendo em seu estômago - Confere.
Começava a parecer assustador, mas ainda era verdade. Quantas vezes tinha que salvar as coisas na mesa para Gerry? Ou nas festas, fazer um prato enorme que ele não ia comer, mas passar para o lado? Para não contar que toda vez que voltava de casa vinha instruído com torta e, por Kalros mãe de todos os tresher maws!, lombo canadense. Ele estava alimentando Gerry, não estava? Céus...

3- Sujeitos A e B sendo reconhecidos juntos pelos corredores da escola, de tal forma que as pessoas perguntavam onde um andava quando o outro estava sozinho - Confere.
Nem se daria ao trabalho de refletir sobre isso, era melhor poupar suas células nervosas.

4- Uma situação tão ridícula dessas que tinha se arrastado por anos sem que o sujeito B fizesse noção (e como a obra era a partir do seu ponto de vista, não sabia sobre A) até que a ridícula frase de "after dating each other for a long time?" fosse dita por A. - Confere/Não confere (estava um pouco perdido aí.)
A ridícula situação existia, podia ver sinais dela por aí. Sofria ao imaginar quantas vezes "princesa" tinha sido dito pelo outro como uma brincadeira e, pelos tentáculos dos hanar, o que é que as pessoas não deviam ter pensando? Porque se ele começava a ver que tinha fundamento para isso, imagina as outras pessoas? Ok, Gerry nunca ia dizer uma coisa dessas, ele não esperava ouvir isso jamais mas, mesmo assim, não era tão cego que não pudesse enxergar de onde a imagem vinha.

E preferia não pensar no que é que tudo isso (entre outras coisas) representava, preferia trancar em uma caixa e depois em outra e outra e outra como uma fila de bonecas matrioshkas e guardar até que seu cérebro tivesse funções normais e não estivesse empenhado em morrer ou ter uma sinapse nervosa bem ali. Engoliu em seco, piscou e quebrou o contato visual (sequer ele conseguia aguentar por muito mais tempo, seu estômago dando voltas e voltas numa sensação desconhecida, numa escala desconhecida, que nada tinha a ver com ânsia de vômito), as únicas coisas que conseguiu fazer.

- Não, Gerry, eu não acho que eu esteja bem, não. - nunca mais ia estar, nunca mais - e se soou meio agonizado como se tivesse acabado de levar o raio de Harbinger no meio da testa, esperava que podia ser perdoado, era coisa demais para lidar com uma enxaqueca de morte pendendo sobre sua cabeça. Na verdade, era coisa demais para lidar em umas três vidas e ele não tinha a Cerberus ou o Projeto Lazarus para financiar sua ressuscitação, então era melhor procurar manter a calma e seus sinais vitais.

resumo:
Para quem sempre soube e teve Percepção negativa dos fatos ao seu redor, as moedas finalmente começam a cair na cabeça de Sheppard, junto com sua sanidade mental.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Sab Nov 03, 2012 10:57 pm

.16


Por aproximadamente três semanas, cinco dias e duas horas (ou um instante que se desdobrou até parecer uma eternidade), Sheppard ficou simplesmente encarando Gerry de volta, mudo, só aqueles olhos escuros muito arregalados presos nele. Por um segundo, o holandês cogitou a possibilidade do amigo ter tido um derrame, aneurisma ou qualquer coisa do gênero, e que a tal enxaqueca teria sido um sintoma; por uma fração do mesmo segundo, ele quase desejou que fosse mesmo esse o caso, porque nem a perna amputada parecia uma tragédia de magnitude suficiente para amenizar aquilo – o que quer que aquilo fosse.

(Sendo absolutamente sincero consigo mesmo, medindo a situação com um olhar quase clínico, Gerry teria de admitir que, depois de 16 anos sem dar o ar da graça – ao menos não para esse tipo de coisa –, aparentemente seus hormônios tinham decidido que havia algo de interessante em sons guturais e narizes colados em seu pescoço. Por outro lado, eles também pareciam ignorar que era o nariz de Sheppard que estava em questão. Genial.

Deixando de lado a parcela doentia da história, porém, talvez não fosse nem tão estranho assim. Talvez o fato de nunca ter visto graça em garotas – e tampouco em garotos, diga-se de passagem – se devesse justamente a nunca ter deixado ninguém se aproximar. Talvez ele precisasse de alguma espécie de, bem, estímulo mais direto, e por uma infeliz ironia do destino, Sheppard tinha pagado o pato. Talvez—

Certo, era uma péssima hora para esse tipo de conjectura.)

O canadense enfim desviou o olhar, cenho meio franzido, e com isso Gerry se permitiu esquecer aquela balela toda por um segundo que fosse, porque seu pescoço tá estava doendo horrores. Largou a cabeça do amigo antes que a esmigalhasse como um mamão murcho, e levou uma das mãos à própria nuca, apertando.

– Não, Gerry, eu não acho que eu esteja bem, não.

Mas claro que, no momento em que Sheppard abriu a boca para confirmar que não, não estava bem, ele esqueceu a dor; especialmente porque os dois tinham um hábito antigo de só se chamar pelos sobrenomes e, se haviam chegado à base dos primeiros nomes, era sinal de que a coisa era séria. Fez então o que lhe restava: para início de conversa, pegou o outro pelos ombros e, com o misto de cuidado e firmeza que se usa para manejar uma criança, o colocou novamente recostado no espaldar da cadeira que ocupava. Depois catou a toalha que tinha caído em seu colo no processo, dobrou-a de novo e voltou a colocá-la na testa do amigo. E ao ver que não tinha absolutamente ideia de como responder, pigarreou para limpar a garganta, inconscientemente esfregando a mancha molhada na camisa como se assim pudesse pelo menos esquentar um pouco a pele.

– Ahn, enfermaria? – Arriscou sugerir, as sobrancelhas quase unidas de tão franzida que estava sua testa, mas logo se sentiu o pior dos hipócritas. Conhecia Sheppard tão bem quando a si mesmo (talvez até melhor), e era óbvio que o mal em questão não era a enxaqueca – ou pelo menos não só ela. E por mais que o próprio holandês estivesse enfiado até o pescoço em uma situação deplorável, tinha se enfiado naquela biblioteca (e naquela história) por um único motivo: tomar conta de Aidan, como fazia desde o primeiro ano. Não era o problema de Gerry que importava ali; na verdade, nunca era o problema dele, fazia questão que fosse assim.

Com isso em mente, respirou fundo e agiu como julgava que deveria agir, arcando com o compromisso que tinha.

– Tem mais aí que a enxaqueca, não tem? – E se não respondeu à própria pergunta, como sempre fazia, deixando claro que sabia bem que não era só a dor de cabeça atormentando o outro, foi em respeito a Sheppard – mesmo que, recapitulando, o outro não tivesse sido exatamente respeitoso ao ficar suspirando em seu ouvido; deixaria isso na conta da doença, de toda forma.

Resumo:
Concorrendo à medalha de Melhor Amigo do Galáxia, Gerry respira fundo, passa por cima de todo o desconforto (e das conclusões pouco reconfortantes às quais chegou) e oferece a Aidan a chance de conversar sobre o que quer que seja. Isso, claro, depois de colocar o outro sentado de volta na cadeira que ocupava, longe de seu ombro.

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Dom Nov 04, 2012 8:25 am

.24

Aidan Sheppard tinha certeza de que essa era um momento da sua vida no qual piscavam de ambos os lados da tela interrupções Paragon e Renegade e ele tinha que escolher exatamente quais botões apertaria e rezar para que estivesse certo e ninguém saísse voando chutado através da janela. Não era nada fácil e, como aquele era o mundo real (era?), sabia que não tinha todo o tempo do mundo para ponderar e fazer sua escolha, nenhum save anterior que pudesse dar load em caso de falha crítica e tampouco um guia que pudesse consultar e ver onde é que essa ação se desencadearia. Era mais ou menos como The Sims e ele não era nada bom nisso, nada bom.

Deixou-se ser remanejado de volta à cadeira porque, realmente, o que podia fazer? A dor de cabeça, violenta e insidiosa, ficava, contudo, em segundo plano diante de todo o resto que acontecia, da sensação no estômago que dava um nó e ele entendia o que era, ele sabia o que era aquilo, era a droga de um escoteiro, era de se esperar que conhecesse a biologia mais do que o bando de bruxos não escolarizados de Hogwarts. Vermelho ou azul, Renegade ou Paragon, vermelho ou azul...

Azul, da cor dos olhos enormes que gotejavam preocupação e qualquer outra coisa sofrida que, naquele momento, o lufano era incapaz de decifrar. Apenas meneou a cabeça quando da sugestão da enfermaria, a dor chacoalhando e reverberando com o súbito movimento mas ele tinha problemas bem maiores e, diga-se de passagem, impossíveis de se resolverem com uma consulta na enfermaria (bem pelo contrário, pelos céus, seria diagnosticado com sérios problemas mentais e a coisa só desandaria mais). Azul, expectante, aguardando pela resposta à última pergunta mas o que é que ele podia responder? O quê?

Engoliu em seco e um "Hey, Vakarian, o que eu significo em tudo isso?" foi descartado logo de pronto, ridículo demais e era coisa de garotinhas de onze anos de idade que ainda não usavam sutiã. Todas as coisas nessa linha como "Tem alguém que... você?" também foram descartadas pelo mesmo motivo e porque imaginava que depois de rir por uma meia hora da grande piada do canadense (piada, hahaha), o outro fosse finalmente entender e ter um ataque apoplético bem ali ao seu lado na biblioteca. Assim, a verdade ficou pendurada de um lado e, do outro a negação disfarçada com qualquer outro mal estar que pudesse conjurar, azul e vermelho.

Verde, o meio caminho, enquanto retirava a toalha de cima de sua testa e se sentava direito, voltando o rosto para Gerry Vakarian - e, por todos os deuses antigos que causaram a Blight, era meio difícil falar qualquer coisa quando tinha tanto azul concentrado do lado oposto, olhando para ele como se esperasse que cuspisse todos os mistérios do mudo, a cura do câncer e a resposta para a esfinge.

- Tem. - uma mão pressionou a própria nuca, a outra esfregou a testa. Era meio triste uma situação na qual você tem algo a ser discutido, precisa de verdade de uma luz, um guia, qualquer coisa e não pode espalhar as cartas na mesa para seu melhor amigo, uma pessoa que entendia mais dele do que ele mesmo porque, bem, implicava o próprio amigo. Como é que as pessoas faziam isso na vida real? Como é que faziam parecer tão fácil? Subitamente, entendeu o desespero de Gupta, mesmo que, à época, tivesse se perguntado porque tanto drama com a Morrigan - Bem mais. E não. - o riso frouxo soou alienígena até para ele - Eu não vou cair morto com um aneurisma ou qualquer outra doença. Acho... espero.

Certo, estava indo bem (piada, agora sim), pelo menos não tinha causado nenhum incidente diplomático que fosse acabar em alguma guerra ou coisa parecida, mas ainda teria que se esforçar muito para melhorar. Era triste demais uma situação daquelas, triste quando olhos que não estavam entendendo quase nada se voltavam para ele e lá estava as voltas de seu estômago se espalhando pelo resto e, deus do céu, ele gostava de Gerry Vakarian. Não, tudo bem, disso sempre tinha sabido, quando gostar implicava no fato de que eram melhores amigos e não existia ninguém que competisse realmente com o afeto normal de se esperar de uma coisa dessas - ele gostava também de Sanjaya, Anjali, Ludwig e um bando de pessoas e isso incluía o samoieda da sua vizinha. Não era isso.

Não.

Ele gostava de Gerry Vakarian. Isso sim era novidade.

E, ao que parecia, eles viviam em um relacionamento sério e monogâmico há anos sem que nenhum deles soubesse - e Sheppard não tinha a mínima ideia se a recíproca era verdadeira. Era coisa demais para se processar com uma enxaqueca, mas duvidava que seria melhor se estivesse em plena saúde física e capacidade mental.

Deixou outro suspiro escapar, piscou de novo e engoliu a crescente sensação de eu-vou-morrer antes de virar o rosto de novo para Gerry. Guardou as mãos para si mesmo, ainda que sentisse a necessidade de segurar em qualquer coisa, qualquer parte e sentir a onda de segurança de sempre fluindo para ele, duvidava que daqui para frente isso fosse acontecer de novo.

- Acho melhor você sentar... não, espera, você já 'tá sentado, haha. - deus, não - Olha... você tem certeza que quer saber? Sério, Gerry, certeza? Porque, se não, a gente finge que é vontade de vomitar nos meus sapatos e okay, deixa pra lá.

Paragon, seguro, certo - até porque não fazia ideia de como é que o grifinório ia encarar essas coisas e ainda tinha o fator de que muito provavelmente ele estava saindo com uma garota que bem podia ser irmã gêmea dele (para falar de narcisismos, esse era certamente o topo) e que o nervosismo talvez fizesse com que Sheppard realmente vomitasse nos próprios sapatos.

Era uma garotinha de onze anos de idade que ainda não usava sutiã.

resumo:
Diante de uma interrupção Renegade, mais agressiva e egoísta, e de outra Paragon, segura e certa, não é difícil entender qual foi a tecla que Aidan Sheppard apertou (azul, tinha alguma dúvida?)

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Dom Nov 04, 2012 1:17 pm

.17


Ainda que não fosse exatamente um otimista, Gerry Vakarian não era também do tipo que se deixa abater por insucessos ou não admite os próprios acertos – ninguém vence batalhas pensando só no que há de errado, afinal. E naquele momento, ainda que se sentisse perigosamente perto de ser um depravado aproveitador (o que era ainda mais estranho considerando que, até minutos antes, se julgava pronto para o celibato), ao menos a distância que havia colocado entre si mesmo o Sheppard podia ser celebrada como uma pequena vitória, ajudando a colocar os pensamentos em ordem e acalmar os nervos.

Bem, ao menos para ele. Porque não era como se o canadense parecesse muito melhor, ainda encarando ele com aquele ar meio perdido, meio perturbado. Certo, ele não queria ir para a enfermaria, o que já era de se esperar. Também garantiu não ter tido um aneurisma ou coisa do gênero e, mesmo que Gerry duvidasse muito de autodiagnósticos, teria de deixar por isso mesmo.

O que lhe restou fazer, então, foi esperar enquanto Aidan remoía o que quer que fosse, olhando de um lado para o outro, como se decidisse o que falar. E de novo foi quase uma vida inteira de silêncio até que Sheppard fizesse o favor de encará-lo outra vez e dissesse alguma coisa.

– Acho melhor você sentar... não, espera, você já 'tá sentado, haha. Olha... você tem certeza que quer saber? Sério, Gerry, certeza? Porque, se não, a gente finge que é vontade de vomitar nos meus sapatos e okay, deixa pra lá.

Respirando fundo, o maxilar meio projetado para a frente, Gerry decidiu que ia colocar aquela pergunta idiota também na conta da enxaqueca – e foi bom, inclusive, ter se lembrado do problema do outro, porque em condições normais, era bem capaz de acertar um tabefe na cabeça de Sheppard só para ver se ele acordava para a vida.

– Ah, não. Pensando bem, não quero saber não. Fica aí com o seu problema, desde quando eu ligo pra essas coisas? – Retrucou em um tom entre seco e sarcástico, cruzando os braços e recostando contra o respaldar da cadeira. – Qual é, Sheppard. E desde quando eu te deixo sozinho com um abacaxi na mão? – Estalou a língua, tentando buscar um tom um pouco mais brando; não podia esquecer que Aidan era mais sensível que ele – na verdade, mais sensível que mais da metade de Hogwarts. – Se você não quiser falar, tudo bem. Mas eu tô aqui pra ouvir.


Resumo e OFF:
Já conseguindo manter a cabeça mais em ordem, Gerry deixa a Aidan a prerrogativa de falar ou não, se dispondo a ouvir de qualquer forma.

OFF: Oi, flood~

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Dom Nov 04, 2012 6:33 pm

.24

Em um mundo justo, ninjas entrariam pela janela da biblioteca com suas bombas de fumaça e jutsus e aquele assunto terrivelmente perturbador ficaria esquecido diante da perspectiva de acabarem sendo mortos por gente encapuzada caso não agissem. Talvez ele fosse morto ou sequestrado por um desses ninjas e o assunto se encerrasse de vez com sua dignidade intacta mas, não, esse mundo não era justo e aquela não era a vila das folhas - e Gerry, santo Vakarian, estava sempre disposto a ouvir.

Na verdade, fazia muito sentido, se parasse para pensar. Todo o sentido do mundo, bastava fechar os olhos de novo e relembrar todas as vezes em que o holandês tinha sido o único a realmente prestar atenção em seus problemas e se importar com eles, ou o único para quem ele de fato contasse todas as coisas. Nem precisava ir muito longe, não era Vakarian o único que realmente sabia sobre seu pai e a recente declaração de morto em serviço? Havia toda aquela confiança que ele dava de graça, toda uma comunicação que às vezes não precisava de palavras, e a forma como se sentia seguro, como era fácil respirar e só ser ele mesmo na frente do outro.

Não havia Sheppard sem Vakarian.

(Se havia Vakarian sem Sheppard, esse era outro caso.)

Devia isso a ele, ser honesto, ao menos. Era difícil? Era. Mas também tinha sido pra um moleque de treze anos explicar ao amiguinho que seu pai não ia voltar pra casa porque tinha acontecido alguma coisa a ele, em serviço. E mesmo assim ele tinha falado e as coisas tinham dado certo, um peso sendo levantado de seus ombros, e desde então vinha sendo assim. Claro, tinha que botar tudo a perder desse jeito porque ele era um imbecil e essas coisas só aconteciam com ele, mas ao menos podia enxergar, agora, de onde é que elas vinham.

Ficava meio complicado encontrar uma lista de palavras boas o suficiente para formar uma frase inteira, a cabeça doía, ainda parecia que tinha sofrido um acidente e acabado estrebuchado contra um poste, e tinha Vakarian meio virado pra ele, num sinal tão evidente de confiança e disposição que chegava a doer, a dar um nó e fazer algo quente subir do peito pela garganta. E já que Aidan já havia reconhecido ser uma garotinha de onze anos, ao menos podia dizer que podia ter feito muito pior e que, de verdade, as outras pessoas nunca tiveram a mínima chance depois de ter sido colocado debaixo de uma asa holandesa.

Respirou fundo e encarou olhos azuis que começavam a ficar preocupados de verdade.

- Hey, Gerry... - nunca o tinha chamado pelo primeiro nome tantas vezes, sabia disso, mas era importante, era sério - Eu hã... antes de mais nada, não foi por querer, de verdade, eu acho que nem percebi direito até uns cinco minutos atrás, talvez menos... e eu vou entender muito seriamente se você quiser dar com a cadeira na minha cabeça mas agradeceria se esperasse até amanhã, até passar a enxaqueca, tá certo? - grande Sheppard, fazendo piadinha de mal gosto porque era a única coisa que segurava seu mundo no lugar. Garotinha. Onze anos. - Você sempre disse que preciso prestar mais atenção nas coisas, huh? Pois é, nisso você tinha razão. Porque uma pessoa demorar uns bons dois anos pra, sei lá, descobrir que gosta de outra é uma coisa ridícula demais até pros meus padrões. - ali, no estreito dos olhos e em sobrancelhas que quase formavam uma só de tão juntas em especulação, Aidan sabia que o outro provavelmente não estava entendendo patavinas. E era ridículo, como era ridículo, que isso quase o fizesse sorrir com um aperto que agora ele sabia o que era. Esticou as duas mãos sem se dar conta, uma no ombro que ele tinha molhado, a outra no rosto, ia morrer em uns três segundos, sufocado - Desculpa, Gerry... cara, não sei nem como dizer isso mas eu gosto de você. - certo, Sheppard, sempre muito eloquente, só que não. Apertou as mãos, olhando muito sério pro outro, a cabeça ameaçando explodir - Eu gosto de você.

Pronto. Não tinha sido tão difícil assim, tinha? Se a gente não podia falar uma coisa dessas pro melhor amigo, ia ser pra quem? Escrever uma carta para sua mãe não parecia melhorar em nada. Não esperava que Vakarian dissesse nada também, na verdade, se esperava alguma coisa era ver o outro saindo correndo da biblioteca e dois anos de estudo sem se falarem, ser evitado nos corredores e agora nas reuniões dos monitores ou o que fosse, só isso. Mas ninguém podia dizer que ele não era uma princesinha de onze anos corajosa.

- Huh... não precisa falar nada, não. Sério. Só... desculpa. - porque não percebi nada, porque sou idiota, porque justo você? Até Charles Xavier e Erik Lehnsherr (Max Eisenhardt na verdade) parece mais fácil. Desculpa.


resumo e off:
Como infelizmente nenhum bando de guerreiros ninjas assaltou a biblioteca e acabou com sua existência patética, a princesinha canadense se vê tendo que esclarecer ao melhor amigo coisas que ele não tinha esclarecido nem pra ele mesmo.

OFF- Meu deus, cara, não sei o que está acontecendo não me culpe por nada, não faço ideia. Meu único insight nesse post foi relembrar o verdadeiro nome do Magneto, o resto é tudinho o Aidan.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Dom Nov 04, 2012 8:55 pm

.18


Ainda que muitas vezes o sangue lhe fervesse nas veias – a cena toda no banquete de abertura era apenas a prova mais recente disso –, Gerry se orgulhava de, como todo Vakarian, ter uma boa dose de controle sobre si mesmo. Mesmo suas decisões mais apressadas não eram impensadas, a análise do quadro sendo quase instintiva. Não era um dom, e sim um hábito cultivado pela família, que certamente o ajudaria muito quando se tornasse um auror, caso se tornasse um auror.

Por outro lado, nesse exato momento o holandês odiava sua capacidade de ver a imagem maior. Porque enquanto uma fração de seu cérebro entrava em pânico e uma grande área parecia absolutamente congelada, havia mecanismos se movendo no fundo de sua cabeça, ponderando que, bem, agora tudo fazia sentido.

(A seu favor, havia o fato de que a sensibilidade não era exatamente o forte dos Vakarians.)

Mas fazia sentido – não conseguia evitar pensar a respeito – que Aidan até hoje não tivesse aparecido com uma namorada. Tudo bem que Gupta era o esportista do trio, mas Sheppard era o tipo de cara sobre quem as menininhas trocavam bilhetes e risinhos. Gerry sempre apostara que o canadense seria o primeiro deles a quebrar o pacto feito tantos anos antes, de colocar os estudos à frente dessa história de namoro. Afinal de contas, ele era o bonito, o sociável, o que sorria para todo mundo; Sanjaya, que ainda carecia um pouco de habilidades sociais, provavelmente se arranjaria com uma Maria-Balaço (outra previsão errada) e o holandês, que tinha tanto carisma romântico quanto um cabo de vassoura, não oferecia risco ao trato – outro erro, pelo visto, já que aparentemente era ele quem tinha tirado a cabeça de Sheppard do caminho. Às vezes o quadro não era tão claro assim, no fim das contas.

As súbitas (e até então inexplicáveis) mudanças de humor do lufano também começavam a fazer sentido, se parasse para pensar. Ciúmes, o tempo todo. Certo, era meio estúpido ter ciúmes da Cousland e – por Merlin, do Michael Alleborn?! Isso sim era doente.

Foi nesse instante que Gerry percebeu que 1) tinha torcido o rosto em qualquer coisa que devia parecer mais uma careta de nojo e choque (porque era basicamente isso); 2) o fato de nojo e choque se aplicarem à ideia de qualquer coisa a mais (ugh, nojo e choque outra vez) com Michael, mas não à declaração de Aidan era no mínimo curioso e devia ser avaliado; 3) ele provavelmente estava sem dizer uma palavra sequer havia uns bons dois ou três minutos, no barato; 4) Sheppard podia enfartar a qualquer momento, se ele continuasse assim.

Ergueu os olhos para encarar o outro, e só ao dar falta das mãos em seu ombro e seu rosto é que realmente atentou para o fato de que elas haviam estado lá. Sheppard, de qualquer forma, mantinha o olhar baixo – o que não era de todo ruim, considerando que Gerry ainda estava tendo alguma dificuldade de não parecer estar de frente para uma assombração.

Fosse como fosse, tinha de dizer alguma coisa, mesmo que não tivesse o que falar. Depois de passar cinco anos inteiros tomando conta do outro, não podia deixá-lo penando daquele jeito por omissão.

– Uh... Aidan? – Chamou, se arrependendo quase que imediatamente, assim que o outro ergueu os olhos com aquela cara de cachorro pronto para ser abatido. O que é que ele podia dizer, afinal? Não parecia muito esperto ou sensível começar qualquer coisa como “bem, não foi exatamente ruim você com o nariz enfiado no meu pescoço”, não para alguém que tinha acabado de se declarar – e especialmente considerando que esse alguém era Sheppard. Aliás, parando para pensar, agora que aquela história de gostar tinha entrado em jogo, talvez as reações um tanto exageradas (e consideravelmente sem noção) do outro desde que haviam se encontrado ali na biblioteca não fossem inocentes de todo.

Oh, Merlin.

Tentando ignorar a conclusão ao menos por ora, Gerry franziu o cenho outra vez e pigarreou, a única coisa que conseguiu fazer para ganhar um mínimo de tempo. Não que fosse adiantar de algo, já que continuava sem ter resposta alguma e—

Diabos. Era com Sheppard que ele estava falando. De alguma forma, eles iam se entender e resolver aquilo.

– Ahn, tá tudo bem, ok? Sério. Sem essa de cadeirada na cabeça. Até porque, foi você que me acertou uma, com essa. – Foi um começo capenga, reconhecia isso, mas ao menos era alguma coisa. Um riso fraco lhe escapou pelo nariz, a boca apertada em um meio-sorriso algo melancólico. – Eu só... – Soltou o ar dos pulmões como se tivesse um peso enorme nos ombros, como se cada palavra custasse mais energia do que tinha. – Uh, eu não sei o que te dizer. Mesmo. E eu tenho que dizer alguma coisa, né? Seja um “que isso, cara, esquece”, ou um “beleza, vamos nessa” – só deixando claro, já que você tem mesmo esse problema de atenção. O negócio é que... Eu não sei. Agora, depois dessa porrada nas ideias, tá complicado pensar.

(Mas tomou nota de que o “beleza, vamos nessa” não pareceu uma perspectiva medonha como a questão “ciúmes do Alleborn”.)

E então, porque de alguma forma parecia a coisa certa a fazer, estendeu uma das mãos para perto das do lufano, sobre a mesa. Primeiro deu um tapa meio sem jeito em uma delas e depois a apertou, como se aquilo pudesse assegurar que estava tudo bem com eles, apesar de qualquer coisa.

– E ow. Sem essa de pedir desculpas, ouviu? Nem pensa.


Resumo:
Ainda que muita coisa comece a fazer sentido depois da confissão de Aidan, Gerry ainda não sabe bem o que fazer a respeito. #GerryConfooso

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Seg Nov 05, 2012 8:07 am

.25
It might not be the right time
I might not be the right one
But there's something about us I want to say
Cause there's something between us anyway

Havia momentos em que Aidan se perguntava se o chapéu seletor realmente era um método infalível ou se, tal como parecia, ele já andava meio caduco. Gerry, por exemplo, Sheppard sempre tinha achado que se enquadrava mais na Lufa-Lufa do que em qualquer outra casa e embora isso agora pudesse soar muito egoísta e quase infantil, não era menos verdadeiro por isso. Gerry Vakarian era lufano enquanto apertava sua mão sobre a mesa, largadas ali porque não sabia o que fazer com elas, arrancando no processo um sorriso miúdo, quase invisível, dele. Estava perdido mesmo se achava que era uma coisa dessas que explicava tudo.

E se apertou a mão de Gerry do jeito que podia, incapaz do esforço sobre-humano necessário para afastá-la, foi porque reconheceu que era a última oportunidade que teria, que não ia correr o risco de sair ocupando o espaço pessoal do amigo de novo, não com o peso de todas essas novidades em seus ombros adicionado ao fato de que sabia que Gerry era um cara legal. Legal, simples assim, uma pessoa que se importava tanto com os outros que tentava ser delicado mesmo numa situação daquelas, mesmo quando um "Não" talvez fosse mais fácil e melhor, mesmo assim ele tentava ser legal e não esmigalhar toda a autoestima e os sentimentos do seu melhor amigo.

Gerry era um cara legal, ha, pelo menos seu coração não era tão estúpido assim.

(Mas era estúpido quando um gesto simples daqueles apertava e espremia e fazia com que engolisse com dificuldade. Fazer o quê? Não era como se pudesse impedir. Era novato demais nessas coisas do coração, quer dizer, só faziam uns cinco minutos e os RPGs da Bioware não cobriam esse tipo de experiência prática.)

Pelo menos parecia que não estava condenado a tomar uma cadeirada e flutuar no ostracismo por dois anos, o holandês era esse tipo de gente de coração bom e compreensível. Tinha sentido um certo pânico, uma vontade de deixar todo o conteúdo inexistente no estômago se derramar para fora, quando divisou uma careta que era algo empolado e de nojo ou coisa assim, mas isso durou pouco e a mão que apertava a sua (mais forte agora? Gerry era realmente uma boa pessoa) era uma claro sinal de que estava perdoado.

E isso doía demais.

Porque ele saberia lidar com raiva, com tudo, entenderia perfeitamente. Mas comiseração daquele jeito fazia doer, fazia parecer que ele não era tão importante assim para causar uma comoção, por mínima que fosse, e embora fosse algo realmente conflitante com o alívio de saber que podia continuar sendo amigo e orbitando ao redor do outro, era forte e pulsante e navegava em suas veias. Tinha se julgado importante demais, tinha erguido o outro a um patamar que ninguém tinha chegado sem sequer perceber e agora notava que faltava muito para ele mesmo escalar aquela subida íngreme.

Engoliu em seco, apertou a mão de Gerry uma última vez antes de soltá-la, com uma dor quase física, e as deixou sobre as próprias pernas antes de respirar fundo e decidir que não podia dar mais trabalho a Gerry do que já tinha dado. Ele não era esse tipo de pessoa, não queria fazer o outro se sentir mal ou culpado ou preso a algum dever ou coisa que o valesse, não. Gerry era legal demais, bom demais para dizer um não, mas Aidan sabia entender. E embora não soubesse mentir muito bem, achava que podia engolir tudo e ao menos fingir que estava bem. Ao menos isso, devia isso a ele também.

- Nah, eu já disse, não precisa dizer nada, sério. Tá tudo bem. - tentou sorrir, não tinha certeza da imagem que passou - Dia agitado, né? - um riso pelo nariz que mais parecia o resfolegar de um animal acuado, o corpo se levantando automaticamente da cadeira e quase a derrubando no processo - Isso tudo foi demais pra mim, descobertas modificadoras demais pra um dia e... acho que vou seguir sua recomendação, né? Enfermaria? É. Enfermaria. - e com isso ajeitou a cadeira antes de tentar sair o mais rápido possível dali e fingir que não era a pior crise da sua existência.

(E que não doía.)

resumo:
Com todo o seu primor em perceber as coisas, Aidan acha que está levando um fora muito educado de uma pessoa boa demais e tenta dizer que tá tudo bem e sair à francesa. Quase derruba a cadeira no processo.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Seg Nov 05, 2012 5:43 pm

.19


Uma das convicções de Gerry Vakarian a respeito de amizades e relacionamentos mais próximos em geral era de que ocasionais acessos de vontade de matar o outro eram algo normal; o controle que o indivíduo tinha sobre essas vontades era inclusive prova da força daquele laço afetivo. Porque com frequência ele pensava a sério em matar Sheppard, ou pelo menos bater na cabeça dele até abrir um buraco por onde as informações pudessem ter acesso mais fácil ao cérebro.

Estava vivendo um desses momentos agora, inclusive.

Era engraçado, ridículo até, como o canadense parecia se esquecer de que Gerry era pra lá de versado na Cartilha Sheppard de Fugas. Saberia reconhecer os sinais de longe, vendado, talvez até meio grogue. Tinha sido exatamente a mesma coisa quando ele começou a sentir falta demais de casa no primeiro ano, mas se negava a admitir, ou quando o Comandante Sheppard desapareceu. Ou quando se via mal em alguma matéria, ou qualquer mudança de humor sem sentido. Era sempre o mesmo padrão: o holandês percebia que havia algo fora de ordem e o outro dava aquele sorriso amarelo, fingindo que estava tudo resolvido. E se Gerry não tratasse de arrancar o problema dele com um sacarrolhas, ficavam por isso mesmo, com um Aidan murcho pelos cantos.

Pois dessa vez ele podia enfiar aquele "tudo bem" onde não batia sol. Porque aquele problema também era do grifinório, e ele não era de fugir.

Nem fez menção de levantar. Apenas esticou o braço, segurando o pulso de Aidan com força.

– Senta aí. – Ordenou, e se o fez num sopro de voz, foi apenas porque ainda estavam em um ambiente que exigia silêncio. O lufano choramingou qualquer coisa enquanto voltava para a cadeira que quase tinha derrubado, muito a contragosto, mas Gerry não se deu ao trabalho de ouvir. Estava mais ocupado olhando em volta, conferindo se havia alguma condição de terem uma conversa daquelas – meio explicação, meio sermão em uma criança birrenta. Ao menos a biblioteca continuava ainda mais vazia que de costume, cortesia do passeio a Hogsmead. (Tinha, contudo, a impressão de que a cadeira de Sage Norris estava um pouco mais deslocada na direção deles dois do que havia estado quando ele entrara lá. O bibliotecário-ou-bibliotecária, porém, parecia dedicar toda a sua atenção a um volume do Profeta Diário.)

– Me faz um favor, Aidan. – Começou, sem soltar o aperto firme em torno do pulso do amigo. Não pretendia deixar ele sair daquela cadeira tão cedo. – Fica quieto, escuta até o final o que eu vou te falar e presta atenção dessa vez. OK? Ótimo.

Até certo ponto, se sentia mal pelo tom ríspido que usava, mas estava bem ciente de que fazia aquilo pelo bem do outro; se Sheppard não sabia ouvir (e ele definitivamente não sabia), precisava de alguém que o forçasse a fazê-lo direito. E Gerry estava ali para isso.

Apoiando os cotovelos nas pernas, projetando o corpo para a frente, ele continuou, a voz saindo como um silvo: – Você me conhece. Você sabe muito bem que eu nunca parei pra pensar nessas coisas, nem queria pensar. Você sabe que eu sou tão sentimental quanto uma parede, sinto muito. Mas... escuta! Mesmo assim, e mesmo não tendo nem dois minutos pra processar tudo que você jogou na minha cabeça do nada... Cara, eu acho que foi bom. Que eu gostei de ouvir isso, apesar de, ahn, não ter a menor ideia do que fazer. Eu só...

A frase morreu no ar sem que ele encontrasse as palavras para continuar. Bufou, nervoso, esfregando a nuca com a mão livre, como se isso pudesse ajudar a colocar os pensamentos em ordem, mas não adiantou de muita coisa. Tentou recomeçar.

– O negócio é que... Cara, se eu nunca comentei com você sobre garota nenhuma, é por nunca ter tido interesse. Ou sobre cara nenhum, ok, não importa. Eu tenho essas minhas coisas de não gostar de gente chegando muito perto, encostando muito... Se duvidar, é até por ficar evitando contato que eu não me ligo em ninguém desse jeito. Só que aí... Bem, aí tem você. Que, ahn... Ah, cara. Não tem ninguém nesse mundo que eu goste tanto quanto eu gosto de você, acho que isso tá claro pra qualquer pessoa. Tá bom, talvez não pra você. – Revirou os olhos, o ar escapando pelo nariz em algo que era meio riso, meio exasperação. – E você... Você não me incomoda. Não muito. Muito menos do que eu faço parecer, pelo menos. Eu reclamo desse seu jeito grudento e os abraços todos porque isso já virou hábito. E...

Travou. De cenho franzido, maxilar projetado para frente, passou a língua por cima dos dentes, ganhando tempo. Não era que não soubesse o que dizer; o problema agora era abordar o assunto.

– Tá. Isso vai ser constrangedor, mas que se foda. – Respirando fundo, baixou os olhos para a mão que ainda prendia o pulso de Sheppard, já meio vermelho onde os dedos insistiam em fazer pressão. – Agora há pouco, você encostado no meu ombro e tal. – Pelo bem da conversa, decidiu omitir os gemidos. – Tá, eu tava meio desconfortável sim, mas... Não foi bem um desconforto ruim. Não, sério. Foi meio estranho, provavelmente porque a gente tá no meio da biblioteca e eu não tava contando em gostar de ter o meu melhor amigo grudado no meu pescoço, mas o ponto é que... Pois é, eu gostei. Acho.

Deu de ombros, erguendo os olhos. Havia qualquer coisa de derrota emburrada no gesto, mas não era tão diferente dos abraços supostamente forçados em King's Cross.

– O que eu acho, Aidan, é que, qualquer que seja essa minha regra esquisita, você é a exceção. E quando eu te digo que não sei o que fazer com isso, é porque eu não sei mesmo. Eu não sei o que que eu posso te oferecer nessa história, nem sei se eu tenho alguma coisa pra oferecer aí. – O cansaço começava a ficar evidente em suas palavras; o sangue quente que o impelira a prender o canadense ali agora já havia esfriado, deixando Gerry com a cabeça suficientemente em ordem para concluir que Aidan merecia mais. Mas, como ele mesmo acabara de dizer, o que tinha a oferecer era aquilo. Ele era aquilo. – Agora, se você tiver paciência, eu cuido dessa sua enxaqueca, a gente passa a semana fazendo as nossas coisas de sempre e fim de semana que vem a gente vai junto pra Hogsmead, que eu sei que você deve estar sentindo falta de cerveja amanteigada. E a gente vê como a situação fica.

Quando soltou o ar preso nos pulmões, foi como se tirasse toneladas de cima dos ombros ainda curvados para frente, pendendo na direção de Sheppard. Puxou de leve o pulso que ainda segurava, em uma tentativa de chamar a atenção dele.

– Vai. Olhando pra mim. Me diz que agora você entendeu.

Nem fez questão de disfarçar a súplica em seu tom.

Resumo:
Particularmente irritado com Aidan fugindo de mais um problema, Gerry decide segurar o canadense na biblioteca e explicar em detalhes a situação, disposto a manter o infeliz preso até entender o caso.

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Seg Nov 05, 2012 9:08 pm

.26
It might not be the right time
I might not be the right one
But there's something about us I want to say
Cause there's something between us anyway

Certo, aquele era o momento na vida de uma pessoa que ela quase escapa, quase, achando que tudo estava resolvido e que era fácil, bastava pedir uma transferência para Durmstrang ou Beauxbatons ou qualquer coisa na América e o assunto nunca mais apareceria, até que, opa, não é tão fácil assim e foi de propósito pra se sentir seguro e a retribuição causar mais estrago. Vakarian não era uma pessoa realmente cruel, como Aidan já tinha estabelecido, ele parecia mais lufano do que qualquer outra coisa, mas devia ter feito algo errado para trazer a fúria dele à tona (bem, não sabia o que podia ser maior do que confessar que tinha uma paixão homossexual pelo seu melhor amigo, talvez tivesse andado perto demais enquanto tentava sua retirada).

Assim, era quase impossível não responder à imposição, sentir os dedos quase furando seu pulso e ser colocado de volta à mesma cadeira que quase derrubara segundos antes, conseguindo apenas alguns "Não... eu... por favor" como uma última tentativa de salvar tudo aquilo sem muitos danos. Mas, silenciado por um olhar que queimava em azul, apenas assistindo a nova tempestade do seu lado, engolindo qualquer resposta. Eram poucas as vezes em que via Gerry assim, na verdade, no momento sequer podia se lembrar de uma, e fazia ele engolir o bolo na garganta tentando mandar a sensação de desconforto e ansiedade pra longe.

Era um atestado à sua paixonite que não tivesse se assustado muito ou erguido o outro braço para se proteger de um ataque que nunca veio. Apenas ficou olhando, meio perdido e bastante cativo, absorvendo as palavras que eram atiradas contra ele. Afinal, Gerry tinha realmente pedido para que ele ficasse quieto e, naquele momento, julgou que era prudente obedecer ao comando. Não demorou muito, porém, para que sentisse vontade de falar e tivesse de morder a língua e se segurar em seu assento, quieto.

Mais do que uma mera presença, um indicativo de restrição, os dedos do outro faziam uma pressão forte em seu pulso, ele nem precisava olhar para saber que a pele logo ia ficar vermelha e que ia demorar um tempo até voltar ao normal. Mas nada disso prendeu sua atenção, nem a comprovação que foi entrando com a mesma graciosidade de um ônibus despencando de um desfiladeiro de que não tinha levado um fora e não era tão não correspondido assim. Não. O que chamou a atenção e quase fez que ele falasse, fechando a boca no último momento, foi a imagem tão ridícula e pobre que Gerry Vakarian tinha de si mesmo. Certo... talvez quase tivesse sido vítima de um enfarto uma ou duas vezes quando as palavras fizeram sentido, tamanha a violência dos batimentos cardíacos e o fluxo sanguíneo fazendo desgraça para sua enxaqueca, mas não, não se comparava à outra conclusão.

- Você sabe que eu sou tão sentimental quanto uma parede, sinto muito. - claro, porque paredes se preocupavam, paredes consolavam e ouviam e Gerry era louco. Mas ficou quieto, assistindo todas as mudanças no rosto do outro, tão óbvias de que ele não era um castrado emocionalmente, esperando. As próprias feições do canadense se suavizando, o susto, o medo, nervosismo e essas coisas indo para longe quanto mais ele ouvia e mais e mais algo em seu âmago se apertava, impossível de se conter, algo morno.

Agora, dizer que quase não caiu da cadeira com o resto do discurso seria mentira mas, felizmente - ou não, a mão de Gerry estava firme ali, ancorado o lufano ao mundo real. Deus do céu! Primeiro Gerry tinha se exacerbado, descido da escada do estoicismo e dito algo que era quase um palavrão - e não, felizmente raios não partiram a biblioteca ao meio. Depois... não, ele não fazia ideia de que se encostar no outro causasse essas coisas. Sempre tinha sido o tipo de pessoa tátil, era o tipo de criação que a mãe escocesa e o pai indulgente tinha dado a ele, não agia diferente com as outras pessoas, agia? Certo... talvez não abraçasse assim tanto as outras pessoas ou não tivesse liberdade suficiente para se encostar nelas e... ok. Ok. Era um ponto a se analisar mais tarde, quando conseguisse pensar direito. Pelo menos, pelo que tinha entendido, não era algo ruim e era possivelmente o que tinha feito o outro entender que não lhe era indiferente. Tátil. É. Algo a se meditar.

Voltou a ficar espremido e imaginar porque diabos o grifinório imaginava que ele queria alguma coisa a mais que não fosse ele, como fazia tão pouco de si mesmo. Quer dizer, até mesmo Aidan que trabalhava com um sistema mais lento tinha chegado à conclusão de que, depois de tantos anos, se ele quisesse algo realmente diferente (?) e mais completo (????) tinha uma dúzia de pessoas por quem podia ter se apaixonado, não tinha? Ainda assim, estava ali na biblioteca, segurando a dor de cabeça, o latejar na nuca, com o pulso preso, esperando, não estava? Era ridículo demais. Observou os ombros caindo pra frente, cansados como se Gerry tivesse corrido uma maratona, e mordeu o lábio inferior, respirando fundo.

- Hey... - com a mão livre, apertou o ombro do outro, quase com a mesma força com a qual ele lhe segurava o pulso - Eu entendi. - tinha entendido, duvidava que um marciano não fosse entender depois disso, e sorriu de canto, olhos fixos no outro. Do mesmo jeito, sabia que não precisava falar muito, seria compreendido igualmente; mas escorregou a mão do ombro de novo para o rosto do outro, mais eloquente do que qualquer coisa que pudesse dizer, mais eloquente que salientar que metade do que ele tinha dito era ridículo, porque, aparentemente, era um milagre teria tempo pra isso se o apocalipse não descesse sobre eles - E ok. Aye, aye, sábado que vem? Mas não a enfermaria, tá legal? Não quero dormir por uma semana. - e encostou a cabeça de novo, dessa vez consciente e mais leve, buscando autorização com os olhos, deixando seu nariz e qualquer outro coisa longe do pescoço do outro.

(E como uma coisa estranha que uma pessoa pensa num momento desses só pra ficar meio sã, Aidan acabava de descobrir o que Ludwig quis dizer com a coisa do Major Alenko e do piloto Cortez. Nunca mais ia duvidar da inteligência de um Corvinal sem motivos para isso.)

resumo:
Finalmente depois de entender tudo (porque até a Luísa no Canadá deve ter entendido), Aidan começa a se sentir melhor - e a entender outras coisas também.

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Re: Migraines

Mensagem por Gerry Vakarian em Qua Nov 07, 2012 10:37 pm

.20


Duvidar: essa era a reação óbvia a toda e qualquer vez em que Sheppard dizia ter entendido algo que não fosse de cunho exclusivamente educacional. Podia parecer um pouco injusto para quem viesse de fora, mas não era à toa que, desde os idos do terceiro ano, Gerry e Gupta usavam o termo “sheppardiar” toda vez que alguém perdia o sentido óbvio de alguma coisa – e ao menos nesse caso, bendita fosse a falta de percepção do lufano, que até hoje não tinha notado a injoke da dupla grifinória.

Foi por isso que, ainda que quisesse acreditar na confirmação do outro, o holandês se manteve cautelosamente cético num primeiro instante. Acabou cedendo, contudo, quando viu o sorriso de canto se desenhando no rosto de Aidan; se havia uma coisa na qual o amigo era absolutamente inapto, era a arte de mentir. A tranquilidade estampada no rosto dele era prova de que tinha absorvido pelo menos uma boa parte do que Gerry havia dito.

(A essa altura, ele mesmo mal se lembrava do que dissera, inclusive. Esperava não se arrepender por isso.)

E se o aperto em seu ombro o acalmava para que ele enfim notasse que já havia passado da hora de aliviar a pressão que fazia no pulso do outro, a mão de Aidan deslizando para seu rosto (ou talvez a forma como ele o olhava) tinha qualquer coisa de desconcertante – no sentido ainda estranho do termo. Mas tentou ignorar isso e se concentrou no que o canadense dizia, o esperado choramingo para não ir para a enfermaria e a confirmação do que, agora que Gerry parava para pensar, talvez tivesse soado como um convite para um encontro. Se era isso mesmo ou não, nem ele conseguiria dizer.

Tudo pareceu ficar imensamente mais fácil quando Sheppard soltou seu rosto e voltou a buscar apoio em seu ombro; era quase engraçado como agora, depois da conversa que haviam tido, ele hesitava, quase pedindo permissão com os olhos – mais ou menos do mesmo jeito que cachorros obrigam os donos a ceder aquele último pedaço de presunto. Do alto de sua firmeza moral, o máximo de resistência que o grifinório conseguiu oferecer foi um sorriso de canto, acompanhado por um resmungo de “mas é folgado pra danar, mesmo”. Porque, se tinha o hábito de reclamar dos abraços por puro esporte, era de se esperar que fizesse o mesmo naquela situação, ainda que ambos os casos parecessem absolutamente certos.

O riso leve que escapou dele mesmo e de Aidan só confirmava isso.

Como era só isso que lhe restava fazer, levou as mãos outra vez à cabeça do lufano, dedos embrenhados no cabelo enquanto os polegares massageavam as têmporas do infeliz que sofria com uma enxaqueca brutal.

– Sem enfermaria. Não falei que eu cuido da sua enxaqueca? Então. – Retrucou em um fiapo de voz; não era como se precisasse (ou devesse) falar mais alto que aquilo, não considerando a proximidade e o estado de Sheppard – sem contar, claro, o fato de que ainda estavam na biblioteca. E antes que percebesse, um comentário idiota lhe passou pela cabeça e seguiu direto para a ponta da língua. – Mas se você apagasse a semana toda, pelo menos o sábado chegava mais rápido. Primeira cerveja amanteigada desde as férias, pensa bem.

E se dessa vez deixara a própria cabeça pender só um pouco, quase apoiada na de Aidan, ninguém poderia culpá-lo.

Resumo:
Com a situação aparentemente resolvida – ainda que ele nem saiba bem qual foi a resolução, afinal –, Gerry se contenta em voltar a cuidar da enxaqueca de Aidan.

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Re: Migraines

Mensagem por Aidan Sheppard em Sab Nov 17, 2012 2:02 pm

.27

Que ele era uma pessoa tátil não era realmente segredo para ninguém, não com o tanto de abraços ou mínimos tapas no ombro, o que quer que fosse, coisa que tinha vindo desde que era pequeno porque sua família era assim, sempre tinha sido assim e só tinha piorado quando seu pai morreu. Agora, porém, se perguntava se o mesmo acontecia com Gerry mas ele tinha algum problema para demonstrar isso porque não teve uma mãe escocesa que limpasse as bochechas dele enquanto ia para o primeiro dia no Jardim de Infância - na frente de todo mundo. Porque mesmo ele conseguiu perceber a cabeça caída quase de encontro à sua, apenas alguns milímetros longe, meio temorosa e aproximar o resto como se guardar aquele mínimo de espaço fosse sinal de respeito ou alguma etiqueta dessas que, sinceramente, Aidan ignorava e também não importava nada.

Ah, bem, ninguém poderia culpá-lo mais tarde por encurtar o caminho e se encostar de verdade, ainda sentindo a mão do outro entremeada em seu cabelo, muito confortável e satisfeito e parecendo um gato de armazém (só esperava que não tivesse ronronado ou coisa que o valesse, isso sim seria demiais para o restinho e dignidade que ainda possuía). Devia estar com uma cara de bobo, sabia disso, meio pálido porque ainda estava doente, mas com uma eterna cara de bobo e não encontrava energia suficiente pra se importar com isso. Paz, talvez o que estivesse em seu rosto, mistura de todas as coisas, fosse paz. Não se importava, realmente.

- Eu acho melhor pensar em cerveja amanteigada mais tarde, agora meu estômago não quer colaborar muito. - a própria voz, tinta de algo que era um sorriso, soou tão baixa que ele quase não a ouviu direito, com se tivesse se lembrado que estava em uma biblioteca ou como se o momento pedisse o mínimo de intervenção possível.

Tinha a ligeira impressão de que tinha algo importane para fazer no sábado, talvez a imagem de Gupta aparecesse no meio dessa impressão vaga, mas, de novo, não conseguia reunir ao mesmo tempo a energia ou importância suficientes para forçar sua memória a recordar. Se fosse algo realmente urgente, tinha certeza que se lembraria... ou quase. E esperava ser perdoado de qualquer deslize mnemônico depois de ter uma revelação daquelas, era coisa demais pra processar de uma vez.

Também tinha a vaga noção de que, em algum momento daquela semana, deveria procurar a garota Pointer e esclarecer algumas coisas, talvez agradecer, mas simplesmente devia procurar saber se a coisa era assim tão evidente ou se tinha sido apenas uma enorme coincidência da vida - a essa altura do campeonato, já não duvidava de mais nada mesmo. Nesse espírito... talvez devesse falar com Ludwig também, nem que fosse para terminar a discussão sobre a indocrinação e os polvos gigantes.

Mas tinha tempo para fazer tudo isso, agora sabia que tinha tempo.

resumo e OFF:
Finalmente em paz, Aidan começa a relembrar de algumas outras coisas que devia ter feito ou devia fazer.

OFF- E finalmente terminei esse flood pra encerrar a ação! Sorry a demora, Lily, é que foi uma das semanas mais enroladas da minha vida, você sabe /hug

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